(Foto: Maique Borges) — Foto: Cooperadores do Evangelho

O MINISTÉRIO PASTORAL
(OU O SERVIÇO PASTORAL)

"Mas em nada tenho a minha vida como preciosa para mim, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus. E eis agora sei que nenhum de vós, por entre os quais passei pregando o reino de Deus, jamais tornará a ver o meu rosto. Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de todos. Porque não me esquivei de vos anunciar todo o conselho de Deus. Cuidai pois de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele adquiriu com seu próprio sangue."Atos 20.24-28

Essas palavras fazem parte do discurso que o apóstolo Paulo pronunciou perante os anciãos da igreja de Éfeso, os quais mandou chamar até Mileto, onde estava hospedado, numa parada durante o seu retorno a Jerusalém. Neste discurso, Paulo admoesta aqueles anciãos, e porque não dizer, os pastores da igreja de Éfeso, a qual ele organizara e amava, de que eles tinham uma grande responsabilidade pela frente: a de apascentarem a igreja de Deus.
O verbo apascentar não é muito esclarecido em nossas igrejas. No dicionário encontramos que apascentar é:

Levar (o gado) a pastar; pastorear; recrear; deleitar: apascentar os olhos; guiar; doutrinar; alimentar; nutrir.

Na Bíblia KJV (King James Version), em inglês, a tradução para a palavra grega traduzida no português como apascentar, é derivada do verbo alimentar. Já na NIV (New International Version) a tradução é sejam pastores. Já para a palavra grega EPISKOPOUS, traduzida como bispos, tanto na KJV como na NIV, a tradução é overseers, que quer dizer, aquele que toma conta, supervisor, o que cuida de que as coisas estão sendo feitas corretamente.
Não tenho ouvido pastores explicando o significado dessa palavra para as suas igrejas, mesmo porque a admoestação de Paulo é para os próprios pastores. A minha preocupação se estabelece ao identificar pessoas intituladas e comissionadas para essa divina missão assumindo posturas e comportamentos completamente incoerentes com o que nos é ensinado pelo apóstolo Paulo no texto que acabamos de abordar. Tenho visto, sim, muitos bacharéis em teologia, alguns nem bacharéis sendo, se revestirem de uma postura ditatorial, usando a igreja como massa de manobra, como joguete, para glorificarem a si mesmos e não ao Senhor de todas as coisas. Igrejas essas que, por não possuírem uma equipe de liderança leiga treinada, experiente e firme de suas convicções de vida eclesiástica, se deixam levar pela ânsia de tais pastores em se auto promoverem, sem serem servos.
Mas vejamos o que a Bíblia diz mais a respeito do pastoreio da igreja do Senhor e da responsabilidade de quem se acha investido dessa missão. O apóstolo Pedro, em sua primeira epístola, se dirige aos anciãos da seguinte forma:

"Aos anciãos, pois, que há entre vós, rogo eu, que sou ancião com eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e participante da glória que se há de revelar: Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, não por força, mas espontaneamente segundo a vontade de Deus; nem por torpe ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores sobre os que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho. E, quando se manifestar o sumo Pastor, recebereis a imarcescível coroa da glória."
1 Pedro 5.1-4

Clareza maior do que esta admoestação de Pedro é impossível haver. Ora, o pastor que não prestar atenção na sua missão de alimentar o rebanho (com a Palavra de Deus), mas que, ao invés, obriga a igreja a fazer coisas que ela não queira fazer espontaneamente (a igreja é soberana para decidir sobre sua vontade), possua torpe ganância, quer de bens materiais, quer de auto promoção, queira dominar a igreja pela sua própria razão e vontade, acima da de Deus e da própria igreja, e que não é exemplo de servo (gr. diákonos), não é digno do missão que recebeu: pastorear. Deve, urgentemente, renunciar à missão que recebeu (o pastorado) e procurar outra atividade. Essa não é sua missão, se equivocou.
Mas continuemos a examinar o texto sagrado. O Senhor também nos fala acerca desse assunto através das páginas do Antigo Testamento, como por exemplo:

"Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto, diz o Senhor. Portanto assim diz o Senhor, o Deus de Israel, acerca dos pastores que apascentam o meu povo: Vós dispersastes as minhas ovelhas, e as afugentastes, e não as visitastes. Eis que visitarei sobre vós a maldade das vossas ações, diz o Senhor. E eu mesmo recolherei o resto das minhas ovelhas de todas as terras para onde as tiver afugentado, e as farei voltar aos seus apriscos; e frutificarão e se multiplicarão. E levantarei sobre elas pastores que as apascentem, e nunca mais temerão, nem se assombrarão, e nem uma delas faltará, diz o Senhor."Jeremias 23.1-4

Parece que o Senhor está dizendo:

"Ai dos pastores que dizem: Se você não está gostando do seu pastor, não está concordando com as ordens do seu pastor, com a direção do seu pastor, pode sair, a porta está aberta! Nessa igreja quem manda sou eu! "

O que o texto nos faz entender é que qualquer postura ou atitude de um pastor que cause justificada discordância da igreja, não sendo tal postura ou tal atitude do pastor, posicionamentos doutrinários coerentes com a sua denominação, torna-o alvo desse "Ai" do Senhor. O Senhor Jesus disse certa vez: "Quem não é comigo, é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha" (Lucas 11.3). O pastor deve ser profeta do Senhor sobre o que está na Bíblia, buscando juntar as ovelhas. Mas, no que tange aos negócios, aos rumos que cabem à igreja decidir, em se tratando de igrejas batistas, que são igrejas livres, o pastor deve fazer sempre a famosa e importante pergunta: "Qual é a vontade da igreja?" O pastor deve ouvir a igreja! Se a vontade da igreja estiver diferente da essência da Bíblia, o pastor deve ser profeta, sim, e doutrinar com profundidade e não superficialmente. Mas se a vontade da igreja estiver coerente com a Bíblia, com as nossas doutrinas, dizendo melhor, com a Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, aí o pastor deve ser servo e cumpridor da vontade da igreja. Uma igreja batista é soberana nas decisões que lhe cabe tomar, e a assembléia dos seus membros tem essa soberania. E aí cabe esclarecer o seguinte, mais uma vez: espiritualmente, o pastor é profeta, porta-voz de Deus para dar as orientações dentro da esfera espiritual; entretanto como presidente da igreja, ele é o porta-voz, o procurador, o representante da vontade da igreja, servo dela e não dono, chefe ou comandante.
Tem mais: se a igreja for fiel ao Senhor, estiver engajada na sua vontade, interessada no desenvolvimento do Reino de Deus, unida e consagrada, Deus providencia o obreiro certo para ela. Mas é necessário que a igreja se envolva de verdade com a obra. Senão vejamos:

"Voltai, ó filhos pérfidos, diz o Senhor; porque eu sou como esposo para vós; e vos tomarei, a um de uma cidade, e a dois de uma família; e vos levarei a Sião; e vos darei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com ciência e com inteligência."Jeremias 3.14-15

O que vemos aqui? Uma repreensão e uma promessa. Jeremias estava diante do povo de Israel que se achava muito auto suficiente e infiel com as coisas do Senhor. O adjetivo pérfido, diz o dicionário, significa:

Traidor, desleal, que falta à fé jurada, infiel, falso.

Muitas vezes o Senhor permite que a igreja, pela sua displicência, tenha à frente pastores que não são segundo o seu coração. Isto talvez para penalizar a igreja e chamá-la de volta para ele, o esposo. Mas, se a igreja demonstrar fidelidade, arrependimento, humildade e consagração, o Senhor muda todo o panorama pastoral da mesma.
Voltando às escrituras, encontramos novamente o apóstolo Paulo, agora diante de seu filho na fé Timóteo, o pastor Timóteo. E a Timóteo, Paulo lança a seguinte admoestação:

"Fiel é esta palavra: Se alguém aspira ao episcopado, excelente obra deseja. É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, temperante, sóbrio, ordeiro, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não espancador, mas moderado, inimigo de contendas, não ganancioso; que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com todo o respeito (pois, se alguém não sabe governar a sua própria casa, como cuidará da igreja de Deus?); não neófito, para que não se ensoberbeça e venha a cair na condenação do Diabo. Também é necessário que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em opróbrio, e no laço do Diabo."1 Timóteo 3.1-7

Aí está o verdadeiro manual do pastor. Destacamos alguns qualificativos, tais como irrepreensível, ordeiro, hospitaleiro, apto para ensinar, moderado, inimigo de contendas, não ganancioso, não neófito, tendo bom testemunho. Os outros são importantes também mas creio que esses estão muito ligados ao comportamento direto do pastor com a igreja e a comunidade. É realmente um desafio que me faz temer e tremer.
Agora vejamos o recado que Paulo enviou para Tito, o qual foi deixado em Creta com uma missão especial. Atentemos:

"a Tito, meu verdadeiro filho segundo a fé que nos é comum, graça e paz da parte de Deus Pai, e de Cristo Jesus, nosso Salvador. Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem o que ainda não o está, e que em cada cidade estabelecesses anciãos, como já te mandei; alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher, tendo filhos crentes que não sejam acusados de dissolução, nem sejam desobedientes. Pois é necessário que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro de Deus, não soberbo, nem irascível, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância; mas hospitaleiro, amigo do bem, sóbrio, justo, piedoso, temperante; retendo firme a palavra fiel, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para exortar na sã doutrina como para convencer os contradizentes. Porque há muitos insubordinados, faladores vãos, e enganadores, especialmente os da circuncisão, aos quais é preciso tapar a boca; porque transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância.
Tito 1.4-11

Meus prezados visitantes, ouvir Paulo é ouvir o próprio Jesus, pois ele, Paulo, era a voz viva do Mestre. Quantas observações importantes acerca do exercício do ministério pastoral. E aproveito aqui para dizer mais uma coisa: o que costumamos chamar de ministério da Palavra está inserido no Ministério Pastoral. Ele é o requisito "apto para ensinar".
Pode parecer que esta minha argumentação seja negativista ou agressiva aos pastores. Mas, creiam, é apenas diferente. Todos os sermões que são pregados, tendo como tema o ministério pastoral, têm sempre aquela fisionomia bonachona, de que tudo são rosas no ministério, e que o obreiro será perfeito. Minha argumentação é diferente porque já tenho quase quarenta anos de vida cristã, já tendo visto, ouvido, constatado, testemunhado e registrado o comportamento e desempenho de muitos pastores, e me sinto incomodado pelo Espírito do Senhor por tantos erros pastorais que tenho constatado. Portanto sinto-me autorizado a argumentar desta forma: contestando o que não tem sido feito, contestando a não observância das orientações de Deus através dos profetas e dos apóstolos.

CONCLUSÃO
Se você, visitante seminarista de teologia ou pastor, está sintonizado com essas argumentações e está servindo a Deus através da sua igreja conforme essas instruções, que o amado irmão seja cada vez mais abençoado.
Se você, visitante seminarista de teologia ou pastor, não está sintonizado com essas argumentações, ainda é tempo de refletir e reparar sua visão a respeito do ministério pastoral.
Se você, visitante membro de uma igreja, nunca tinha refletido sobre isso, reflita agora e passe essa reflexão para a sua igreja.
Que Deus vos abençoe e seja glorificado sobre todas as coisas.
Amém!


BIBLIOGRAFIA
Bíblia Revisada Segundo os Melhores Textos no Hebraico e no Grego - Imprensa Bíblica Brasileira
Bíblia Shedd - Edições Vida Nova
Novo Testamento Trilingüe, Grego/Português/Inglês - Edições Vida Nova

The CRISWELL Study Bible (KJV) - Thomas Nelson, Publishers
Por: A. C. G. Mataruna
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A. C. G. Mataruna

A. C. G. Mataruna

Antonio Carlos Gonçalves Mataruna nasceu no Rio de Janeiro aos 14 de março de 1946. É engenheiro mecânico da turma de 1980 da Escola de Engenharia do Rio de Janeiro (Universidade Gama Filho). É bacharel em Música Sacra, com especialização em canto, pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, onde também lecionou a disciplinas de Culto e Louvor, para as turmas do Curso Técnico de Música Sacra, e de Culto Cristão, para turmas de Teologia. É mestrando em Música Sacra pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. Atualmente é membro da Igreja Batista do Méier, Rio de Janeiro, RJ.